Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Com elevada estima e consideração, Nuno


Na sequência do meu artigo publicado na semana passada no Comércio do Seixal e Sesimbra, cujo título era "O Renascer dos Mortos" e que podem ler ali em baixo, o Nuno Tavares, presidente da concelhia do Seixal do Partido Socialista e meu colega na Assembleia Municipal, resolveu brincar ao "Em Busca do Vale Encantado" (não sei se é do tempo dele ou não) e saiu em defesa dos dinossauros da política - quis transformar Mário Soares e Jorge Sampaio em dinossauros fofinhos. Para que conste, só chorei uma vez a ver o "Em Busca do Vale Encantado" e tinha 6 anos. A bondade do artigo do Nuno Tavares não despertou, portanto, em mim qualquer sentimento melancólico. E aqui fica a minha resposta ao mesmo.

Nuno,

em primeiro lugar, tratemo-nos por tu. Somos jovens (eu mais que tu - e a minha farta cabeleira demonstra-o), pelo que não faz sentido aqui a utilização de expressões tão cuidadas quanto o "você", o "senhor" e muito menos o "vossa excelência". Portanto, tu.

Em segundo lugar, quero dizer-te que, caso houvesse cartões a dizer "Eu posso falar sobre o assunto X", eu tinha um. Isto para te dizer o seguinte: sou suficientemente livre e consciente para nunca ter defendido pessoas como Dias Loureiro ou Oliveira e Costa só porque são do PSD. Basta procurar pelo arquivo do blogue. Basta ver o meu histórico de artigos na imprensa local. As minhas posições sobre Cavaco Silva são conhecidas. Ainda há umas semanas o pobre homem era vítima dos meus infrutíferos ataques num artigo de jornal - coitado, nem deve ter dormido bem. Portanto, se a ideia era defender Soares, Sampaio ou Otelo com base no argumento "estes-aqui-são-maus-mas-e-as-bestas-do-teu-partido-que-são-ainda-piores-e-tu-nunca-dizes-nada-sobre-eles", essa ideia falhou. E falhou porque eu tenho um cartãozinho que diz "Eu posso falar sobre Soares, Sampaio ou outro qualquer, precisamente porque não sou cego o suficiente para poder também falar sobre Cavaco, Loureiro ou outro tipo qualquer". Atestas a minha idoneidade moral? Atestas? Óptimo.

Em terceiro lugar, e afastada que está metade da tua argumentação, falemos só dos dinossauros. Daqueles de que eu falei - e que não são fofinhos.

Adjectivei Mário Soares como "obreiro da democracia". A minha vénia está feita. Sim, senhor, o homem teve os seus méritos. E muitos (gaita, mesmo muitos) defeitos. Mas lá teve os seus méritos. E agradeço-lhe imenso poder hoje escrever sobre o que me apetece. A sério que agradeço. Não sou é estúpido que chegue para, mais do que agradecer, idolatrar um homem que, em 2011, vive desfasado do seu tempo e da sua própria realidade.

Mário Soares foi primeiro-ministro durante 4 anos. Foi presidente da República durante 10 anos. Foi Eurodeputado durante 5 anos. Lidou com o FMI bem de perto e aplicou medidas de austeridade, vá, durinhas. Ao longo da sua carreira política, teve momentos de pura ordinarice masculina, a saber: episódios Snu Abecassis e Nicole Fontaine. Em dia de eleições, apelou ao voto no seu próprio filho. Nada disto é mentira, Nuno. Os factos são claros. Este homem, que é um dinossauro da política, nos últimos tempos veio a público sacudir a água do capote, desresponsabilizando-se do que fez em Portugal nos últimos 40 anos. Pior: o homem que se casou no exílio, o obreiro da democracia, voltou a público para se mostrar excitado com revoltas árabes contra ditaduras. E veio defender o mesmo tipo de revoltas... em Portugal. Contra um sistema democrático que o próprio ajudou a implementar!

É certo que o pobre homem tem todo o direito de dizer o que bem quiser. Claro que tem. Tem até direito, como disse no meu artigo, a querer viver à sombra dos momentos de glória que teve. Que viva. O que eu coloquei em causa foram critérios editoriais. Foi a subserviência dos órgãos de comunicação social à figura de Mário Soares e o respeito pelos disparates que veio dizer (e que poucos tiveram a coragem de contrariar). Que o senhor tem todo o direito a dizer disparates eu não nego. Também não nego que a comunicação social tenha o direito de escolher que atenção quer dar e a quem. Nada disso. O que me transcende é que não haja quem separe o trigo do joio. E a verdade é que Soares veio dizer banalidades. Veio dizer que estava chateado com o rumo que o país estava a seguir. E ai, quando o paizinho fundador se chateia com o rumo que o país está a seguir, cuidado ó bicho! Saiam da frente! Arreda, que o homem vai passar. O pior é que o rei ia nu. Em pelota, coitado. E o que toda a gente fez foi dizer que o paizinho fundador estava chateado. Sabes que mais? Eu quero lá saber se o paizinho fundador está ou não chateado. Preocupa-me mais o homem da mercearia lá do bairro do que o paizinho fundador. Mas o homem da mercearia não tem atenção de ninguém. Não é dinossauro, azar.

Já agradeci ao Dr. Soares a ajuda que me deu para que eu tivesse o direito de dizer o que penso. Ele também o tem e eu nunca lhe dei nada. Não sou é tolo. Da mesma forma que o meu agradecimento ao senhor não se transforma num "amén" permanente e num "diz-lá-disparates-à-vontade-que-até-te-casaste-no-exílio" constante, também não é justo que as minhas opiniões sejam postas em causas porque nunca tive um ficheiro na PIDE. Ou porque não sou idóneo o suficiente para criticar gentalha do meu partido - que até sou. Critiquei Soares, Sampaio e Otelo como seria capaz de criticar Cavaco ou Sá Carneiro. Não tenho bezerros de ouro. Nem nunca gostei muito de dinossauros. Sejam eles de que partido forem.

Um Feliz Natal e que 2012 te traga tudo aquilo que desejares.

Um abraço, Nuno.

3 comentários:

Luis Melo disse...

Ex-ce-len-te!

Luis Melo disse...

E já agora deixo aqui o meu arquivo de posts sobre Mário Soares

Anónimo disse...

Quando é no rabinho dói sempre mais...