Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Mais um aninho que aí vem

Não gosto de diminutivos. Gosto tanto de diminutivos como de couves de bruxelas, mas já não me choca mandar alguém para o "caralhinho". Porque o caralhinho não é bem um sítio, nem se refere a um pénis minúsculo. Afinal, seria absurdo mandar alguém para o caralhinho como se estivesse a mandar alguém para o caralho pequenino alheio, para o dele próprio ou para o meu. Em primeiro lugar, porque, não sendo adepto da genitália masculina, desconheço o tamanho do pénis das pessoas com quem falo (do verbo falar). E em segundo lugar, porque tenho um avô nigeriano.
Feita a excepção do caralhinho, aqui solenemente vos declaro que não gosto de diminutivos. Não gosto do "coitadinho", do "atrasadinho", do "pequenininho" ou dos cornos do Manuel Pinho. Gosto de ir à tasca - e não à tasquinha - e pedir um bife - não um bifinho - com batatas, arroz, ovo e salada - e não batatinhas, arrozinho, ovinho e saladinha. E beber tinto do garrafão. Quem pede um copinho - ou um copito - de vinho, não sabe do que gosta, não sabe o que quer e tem tanta tendência para a androginia como eu tenho para a psicologia barata. Já "vinho" em si - que deve ser diminutivo de "vinhaça" - é uma palavra demasiado fofinha (merda!) para descrever o vinho em si, que, de resto, nada tem de amoroso ou de paneleiro.
Imaginem o bacalhau. Pronunciem a palavra "bacalhau". Bacalhau é coisa séria e imponente (não é do nada que o Quim Barreiros utiliza tanto o bacalhau para descrever a genitália feminina). Comer uma posta de bacalhau envolve um ritual. Uma couve (palavra bastante rude) e copos de vinho. Da garrafa ou do garrafão. Agora experimentem pedir ao empregado de mesa uma "postinha de bacalhau" com uma "couvinha" a acompanhar. «Quer também uma batatinha?», perguntaria o empregado. «Não, não, traga-me antes uma cenourinha, que me faz os olhos bonitos», responderia você, o imbecil. Isto não teria lógica nenhuma. Já para não falar da merda da teoria das cenouras e dos olhos bonitos, que é estúpida como tudo. Sim, sim, ó gente da saúde, barafustem para aí e falem sobre vitaminas, que eu já vos mando para o caralhinho.
Mesmo o bacalhau desfiado nunca pode ser à Brás ou com natas. Tem de ser coisa de homem grande: à posta. No limite, come-se punheta de bacalhau, que é coisa séria, ordinária e tem cebola e alho, o que é uma prova de esforço quase tão grande quanto o triatlo.
Esta mania portuguesa de pedir tudo em pequeno, de falar das coisas como se elas fossem insignificantes é um bocado irritante. Parece sempre que quem fala assim pede licença para cagar quando está sozinho em casa. O atrasado mental que pede um copinho de vinho, tem, na verdade, medo de pedir um copo de vinho. Não faz questão de se afirmar e, ao empregar a palavra "copinho", quase pede desculpa ao mundo por estar a beber um Dom Pérignon (quando devia mesmo pedir desculpa ao mundo por beber Casal da Eira do pacote).
Esta gente mata-me. Não é depressa, é... devagarinho. Mas mata.

Feliz Ano Novo, ó gente!

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