
Meus caros amigos, venho, neste início de ano, dizer-vos uma coisa feia, mas que tem sido embelezada com pó de arroz: morreu um ditador. Duvido que saibam do que estou a falar, mas eu dou-vos uma ajuda: Kim Jong-Il. Ainda não? Bom, então nesse caso eu falo-vos dele como a comunicação social o tem feito: morreu o “querido líder”. Já passaram umas semanas, mas convém que um pormenor não seja esquecido: o PCP, não satisfeito por ter já várias vezes afirmado que a Coreia do Norte era uma democracia, decidiu expressar condolências ao povo norte-coreano. E a comunicação social aceitou este facto como se de algo muito natural se tratasse. Mas não é.
Não é natural que um partido que tanto reclama para si a responsabilidade da implantação de um sistema democrático em Portugal lamente desta forma a morte de um ditador bárbaro e sanguinário. Mas do PCP novidades não se esperam: já sabemos que, segundo a cartilha do seu líder parlamentar, os norte-coreanos vivem felizes e contentes em plena democracia.
Ainda numa das últimas sessões do ano da assembleia municipal, um deputado do PCP, depois de dizer cobras e lagartos do “Governo do PSD e do CDS” ou dos “Governos do PS, PSD, com ou sem CDS”, se ofendeu – qual virgem – com um documento que continha a expressão “Governo de Fidel”. Dizia ele que o Governo de Cuba não era castrista nem de Fidel: era o Governo de Cuba. O Governo Português é que, coitado, não é o Governo de Portugal: é o Governo “dos outros”.
Estes episódios, se não fossem tristes, seriam, no mínimo, engraçados. O PCP não gosta que lhes ataquem os ditadores de estimação. Nem admitem que os tratem como ditadores. São líderes. São queridos. São fofinhos. São pintados como se fosse possível imaginar um Estaline a fazer anúncios para a Dodot.
Apesar de tudo, é um direito que assiste ao PCP. Um democrata sabe aceitar um comunista. Já o PCP não aceita de bom grado que existam democratas que não sejam comunistas. O PCP – bem como a restante esquerda revolucionária e proto-fascista – não gosta, por exemplo, que exista uma direita. Não gosta que a direita tenha ideologia e que a defenda. Dizem que há uma “agenda ideológica” escondida sempre que se defende alguma posição. Pois claro, ora essa, a direita, pá, não pode defender ideias, não pode ter ideologia. E um democrata – seja ele de direita ou não – sabe aceitar isto. Não se conforma, não gosta, responde e barafusta o mais que pode, mas sabe que, no fim das contas, o direito do outro a dizer o que pensa é mais forte. Como dizia Voltaire, “eu posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”. O PCP, por sua vez, defenderá até à morte o direito de meia dúzia de selvagens a restringir todos os direitos dos outros. São opções.
In 'Comércio do Seixal e Sesimbra', 06.01.2012
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