Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
O monopólio da indignação
Há certas coisas que, se dúvida, devem maravilhar a troika e demais estrangeiros não embuídos do espírito lusitano. Coisas cristalizadas, mais que a fruta que decora um Bolo Rei. Uma delas é o monopólio da defesa dos trabalhadores. Bastião da Esquerda, advoga para si a salvaguarda de tudo quanto seja direito dos trabalhadores. Ao trabalhador nada se pode exigir mais, e essa Esquerda reserva para si o direito de defesa de todos os fracos e oprimidos, uma espécie de Michael Knight sem o seu KITT. A questão persiste: quem ataca os trabalhadores? Alguém de boa fé acredita piamente que a Direita não gosta dos trabalhadores, que ama profundamente realizar cortes e despedimentos, que procura reduzir o país a cinzas? Decretar medidas desta dimensão é certamente, no mínimo, tão doloroso quanto sofre-las na pele. Os trabalhadores têm razão, muitas das vezes, nas suas reivindicações. Não é papel de nenhum quadrante político chamar a si exclusivamente a responsabilidade da sua resolução e defesa. Um problema laboral é um problema da Nação. Usurpá-lo políticamente é diminuir e sequestrar o seu real valor. Se a Esquerda advoga uma solução e a Direita propõe outro caminho, a finalidade é a mesma: a resolução do conflito. Não é um ataque e uma defesa, é um compromisso. Chama-se a isso união nacional, convergência de esforços. Ninguém se preocupa em ler os Acórdãos, e os problemas laborais são polarizados como se de uma brincadeira de crianças se tratasse: se o meu vizinho disse "A", então eu faço "B", nem sequer preciso saber qual é o tema. Os trabalhadores vêem-se assim como arma de arremesso política nas mãos dos Sindicatos, altamente políticos. Daí eu sempre ter preferido Comissões de Trabalhadores, apolíticas. Respostas imparciais e técnicas para problemas globais. O mesmo com o 25 de Abril: quem é que o vendeu à Esquerda? Quem lhe deu o monopólio da sua reivindicação e o poder de dizer, acima de qualquer suspeita, quem é contra e a favor da Democracia e do Estado de Direito? Serão os mesmos que fugiram para a Argélia para escrever poemas enquantos outros morriam na Guerra Colonial? Ou outros que encontram conforto dos filósofos da Antiguidade em Paris furtando-se às suas responsabilidades, qual comandante do Costa Concórdia? Ou ainda aqueles que, assaltando bancos e colocando bombas após passagens pelo COPCON, definem qual é o tempo propício de em 2012 pegar nas armas e derrubar o Governo? A indignação também me indigna: só agora se descobriu que existem pessoas a ganhar reformas irrisórias? Descobriu-se agora, ou nos últimos 12,5 anos de (des)governação Socialista em 15 possíveis, não existia gente com reformas abaixo do limiar da pobreza? A verdadeira indignação de massas deveria ter acontecido quando existia a falsa ilusão de tudo para todos. Esta indignação que nasce do "Aí, foram-me ao bolso" não chega, é excessivamente curta para fazer face a um desígnio nacional. É preciso ter visão reformista em tempo de vacas gordas. Quando as vacas são magras, já nada há a fazer... E é agora que a indignação se manifesta? Interessante e positivo, mas fora de tempo. Tanto Esquerda e Direita deverão dar resposta a estes problemas, conjugando a filosofica com a praxis da acção governativa, nacional ou local. Quem tem grandes reformas (desde que as receba por direito - descontou milhares de Euros por mês) não é criminoso nem é o inimigo, nem deve ficar sem nada porque tem muito. Quem muito tem, muito fez para lá chegar (desde que não andem com rosas ao peito). Da mesma forma que quem pouco ganha, deverá ser ajudado a atingir e/ou manter um nível respeitável de vida, mantendo a sua dignidade. A minha Direita não é melhor que a tua, nem a tua reforma é melhor que a minha. Queremos resolver o problema, ou gostamos tanto de nos ouvir que só conta o prazer de jogar o jogo e andar em círculos? A Esquerda é invejosa, recalcada e ressabiada e a Direita é um bando de burgueses fascistas... Era bom que tudo pudesse ser assim, simples. A realidade é que a minha Direita é social, é democrata, está ao lado de quem precisa e de quem trabalha. E essa verdade da vida que, tal como ela, não é preta nem branca, é cinzenta, custa tanto a analisar que é sempre mais fácil fechar os olhos e reproduzir dogmas vazios. Discordem de mim se eu estiver certo ou errado, e não se a minha cor é a mesma da dos trabalhadores. As cores mudam e, tal como Einstein nos dizia, são meros reflexos de comprimento de onda relativa. As razões, tal como os factos, são incontornáveis. Se fechar os olhos não vejo cores, mas continuo a pensar.
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